domingo, 25 de novembro de 2007

Meu querido Dorian Gray

Eu não ia postar este texto porque achei que seria boring e que a galera iria me achar uma chata.
É interessante porque, podem me chamar de louca, mas reflete algo que eu realmente sinto e não sei como os outros se sentem em relação a isso. Em relação ao peso que carregamos na alma e no nosso medo de errar e de viver.
Então, minha amiga Carla L. leu e gostou. Resolvi postá-lo em homenagem à ela. Beijo, Carlinhaaaa!!



Estes dias eu estava pensando sobre os primeiros erros. Devem ser aqueles que dão início à uma sequência de ações irracionais e mal-pensadas. Eu tenho os meus, todos têm os seus. O que seria de Dorian Gray se nunca tivesse aceitado posar para aquele quadro? Continuaria ele um jovem imaculado? Mas a aventura de sua vida apenas começou depois daquela pintura, ou seja, parece que a vida em si começa com a perda da inocência. Meu pai me dizia que o mais triste era perder a inocência, a infância, a fase na qual acreditamos na magia, no encanto, nas pessoas. Hoje eu consigo entendê-lo. Hoje, minha vida começou.

Eu sempre digo que meu retrato está em casa, apodrecendo. Este retrato é a minha alma, assim como Dorian. Porque, por fora, não conseguimos mostrar o que já passamos, nem sempre externamos nossos sentimentos. Aquela vez na qual você foi enganado e guardou a mágoa, aquela pessoa querida que foi embora, aquelas pessoas que lhe fizeram mal e todas aquelas vezes em que você também enganou, traiu, mentiu, sacaneou, acusou. A inocência vai embora e a vida começa. Claro que no meio dessas más ações existem as boas. E claro que junto com essas misérias, vêm as conquistas, os amores, as alegrias, o mundo construído. E a alma registra.

Milan Kundera* pondera a respeito da traição, por exemplo. E acho que por seu exemplo ela pode ser considerada um primeiro erro típico: a traição acontece uma vez por um motivo específico. E, uma vez consumada, ela se repete até que seu motivo original não interfira mais, ou seja, já não é mais por esse motivo que ela ocorre. E o motivo se perdeu, virou a traição em si.

E assim acontece com todos os primeiros erros. A primeira vez que mentimos provavelmente é necessária. E, se passamos ilesos pela mentira, aprendemos que podemos continuar. A criança mente e percebe que não é pega na mentira, então, não se torna necessariamente um adulto mentiroso (não gosto de adjetivos taxativos, são pesados), mas sabe que pode mentir, não mais pelo motivo original, mas por tantos outros.

Mas não cometer os primeiros erros seria como não viver, ou viver uma vida covarde. E isso é ainda mais insuportável do que o erro. O melhor é aceitar o erro e pensar que podemos sim, consertá-lo com outros acertos. Segundo Spinoza, é mais fácil condenar os erros do que ensinar as virtudes. E isso é viver com responsabilidade, ou seja, sabendo que os erros existem, que vamos cometê-los, mas saber também que temos total domínio sobre nossas ações. Erramos e acertamos e os dois são bons e necessários. E ambos são inevitáveis.

* Milan Kundera é um escritor tcheco. Ele cita este exemplo em seu famoso livro "A insustentável leveza do ser", um sucesso dos anos 80 que eu somente li agora e, confesso, o cara me deixou encucadíssima com tudo. Quando ele citou a traição, achei demais porque é um termo que acaba se extendendo. Uma vez um amigo me disse que, quem nunca deveu ao banco, tem medo de dever. Mas, depois que isso acontece uma vez e vc se recupera ou quebra, dever se torna parte da sua vida e assim vai...E acredito que muitas pessoas vivam assim. Porque dever já se tornou uma parte da sua vida. Incroyable!